Arcano Maior · nº 14
A Temperança
Em estudo
Leitura tradicional
A Temperança é o arcano XIV. Waite a descreve como “um anjo alado, com o sinal do sol na testa e, no peito, o quadrado e o triângulo do septenário”. A figura, diz ele, “não é masculina nem feminina”: verte “as essências da vida de cálice a cálice” e mantém “um pé sobre a terra e outro sobre as águas”. Ao fundo, “um caminho direto sobe até certas alturas na linha do horizonte, e acima há uma grande luz, através da qual se vê vagamente uma coroa”.[fonte]
Para Waite, o nome quase engana: a carta se chama Temperança “de modo fantasioso”, porque, “quando seu governo se instala em nossa consciência, ela tempera, combina e harmoniza as naturezas psíquica e material”. Ele recusa de propósito os sentidos convencionais — as estações do ano, o movimento perpétuo da vida — e lê ali “parte do Segredo da Vida Eterna”.[fonte]
Como adivinhação, Waite lista “economia, moderação, frugalidade, administração, acomodação”. Invertida: “coisas ligadas a igrejas, religiões, seitas, ao sacerdócio; também desunião, combinações infelizes, interesses em conflito”.[fonte]
Como usar
“A carta é a virtude da moderação; o anjo verte devagar, sem esforço e sem derramar — o autodomínio parece tranquilo.”
A ideia moderna de autocontrole não é resistência heroica. Num estudo de amostragem de experiência, Hofmann e colegas viram que quem tem mais autocontrole sente tentações mais raras e mais fracas — não vence o desejo, encontra menos dele.[fonte] E esse traço age sobretudo por hábitos e ambiente arrumado, não por força de vontade na hora.[fonte] Para escrever toda manhã, não conte com resistir ao celular: deixe-o noutro cômodo. A temperança está no arranjo, não na luta.
“A palavra é literal: o anjo *tempera* as essências — ajusta, não represa.”
Há dois jeitos de lidar com uma emoção forte. Suprimir é segurar a expressão para fora — represar. Reavaliar é reformular o sentido até o próprio sentimento mudar — temperar. Gross e John mediram os dois: quem reavalia relata mais afeto positivo, menos negativo e relações melhores; quem suprime por hábito se sai pior.[fonte] Diante de uma revisão de código dura, em vez de engolir a irritação, reenquadre-a como “caça-bugs de graça” — o reenquadre baixa o calor; o aperto na garganta, não.
Repositório
Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.
O ponto ótimo fica no meio, não no máximo
“A moderação é o coração da carta: nem falta, nem excesso — a dose justa.”
Desempenho não cresce sem parar com a pressão: sobe até um ponto e depois cai — uma curva em U invertido. Yerkes e Dodson mostraram isso já em 1908, e tarefas mais difíceis têm o pico em pressão mais baixa.[fonte] Pressão zero gera dispersão; pressão esmagadora, pânico e erro. Um prazo com alguma folga afia o trabalho; sem prazo nenhum, ele se arrasta; um prazo brutal vira bug. A dose do meio rende mais — temperar é achar essa dose, não zerar nem maximizar.
Combinar os dois cálices, em vez de escolher um
“O anjo não escolhe entre as duas taças: verte de uma na outra e as combina.”
Numa negociação, o reflexo é supor que os interesses se opõem ponto a ponto e rachar a diferença — a crença no “bolo fixo”. Thompson e Hastie mostraram que quem parte dessa suposição perde as trocas em que cada lado cede no que valoriza menos; quem a corrige cedo fecha acordos integrativos, melhores para os dois.[fonte] Duas equipes disputam uma sprint: em vez de dividir ao meio, troquem — uma leva esta, a outra escolhe primeiro no próximo trimestre. Combinar acha valor que o meio-a-meio joga fora.
Decidir a frio, não no calor
“O anjo está sereno e o gesto é lento; a moderação da carta é também de tempo.”
Num estado calmo, subestimamos o quanto um estado “quente” — raiva, fome, excitação — vai nos empurrar; decisões tomadas no calor saem distorcidas de forma sistemática. Loewenstein chamou isso de lacuna empática quente-frio.[fonte] A jogada temperante é inserir demora, para escolher a frio. A resposta raivosa, a compra por impulso: durma sobre elas. A versão que você manda de manhã costuma ser a melhor — não porque a emoção some, mas porque deixou de comandar.
Puro místico
tradição · sem correlato verificável
Waite recusa de propósito os sentidos “convencionais” e carrega a carta de símbolo: o sinal do sol na testa, o quadrado e o triângulo do septenário no peito (com o nome divino, o Tetragrama, inscrito acima), o anjo que verte “as essências da vida” e guarda “parte do Segredo da Vida Eterna”.[fonte] Ele a lê como “a luz solar realizada na terceira parte de nossa triplicidade humana”, pela qual sabemos “de onde viemos e para onde vamos”.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn — a letra Samekh (“apoio”), o signo de Sagitário, o caminho 25 da Árvore da Vida, o título “A Filha dos Reconciliadores” — e o riacho que parece correr para cima entre as taças. Tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável, sem uso prometido.
Mostrar leitura invertida
Na tradição, a Temperança invertida é a moderação perdida: o excesso, a pressa, as “combinações infelizes” e os “interesses em conflito” que Waite lista para o reverso.[fonte]
Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para achar onde você saiu da dose. Uma pergunta: estou num talo do U — pressão a zero ou no vermelho? — o corretivo é buscar o meio.[fonte] Outra: que decisão estou prestes a tomar no calor? — a resposta é inserir demora e escolher a frio.[fonte]
Fontes
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Hofmann, W., Baumeister, R. F., Förster, G. & Vohs, K. D. “Everyday Temptations: An Experience Sampling Study of Desire, Conflict, and Self-Control.” Journal of Personality and Social Psychology 102, n. 6 (2012): 1318–1335.
- Galla, B. M. & Duckworth, A. L. “More Than Resisting Temptation: Beneficial Habits Mediate the Relationship Between Self-Control and Positive Life Outcomes.” Journal of Personality and Social Psychology 109, n. 3 (2015): 508–525.
- Gross, J. J. & John, O. P. “Individual Differences in Two Emotion Regulation Processes: Implications for Affect, Relationships, and Well-Being.” Journal of Personality and Social Psychology 85, n. 2 (2003): 348–362.
- Yerkes, R. M. & Dodson, J. D. “The Relation of Strength of Stimulus to Rapidity of Habit-Formation.” Journal of Comparative Neurology and Psychology 18, n. 5 (1908): 459–482.
- Thompson, L. & Hastie, R. “Social Perception in Negotiation.” Organizational Behavior and Human Decision Processes 47, n. 1 (1990): 98–123.
- Loewenstein, G. “Out of Control: Visceral Influences on Behavior.” Organizational Behavior and Human Decision Processes 65, n. 3 (1996): 272–292.
História da carta
Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como a mulher que diluía vinho com água virou um anjo alquímico, e por que ela é uma virtude antiga vestida de trunfo.
A virtude que mistura água no vinho
Antes de qualquer sentido oculto, a Temperança é uma das quatro virtudes cardeais clássicas — a moderação. O nome vem do latim temperare, “misturar na proporção justa”. Na arte medieval, a Temperantia costuma aparecer como uma mulher que verte líquido de um vaso para outro: o gesto de diluir o vinho com água, imagem antiga do domínio sobre o apetite.[fonte] As duas taças da carta de 1909 são a herança direta desse gesto — misturar, não escolher.
Três virtudes viraram trunfo; uma ficou de fora
O tarô guardou três das quatro virtudes cardeais como trunfos: a Justiça, a Força (Fortitude) e a Temperança. A quarta, a Prudência, sumiu — ausência que intriga estudiosos até hoje.[fonte] Por isso a Temperança tem irmãs no baralho: ao lado da Justiça e da Força, são três faces de um mesmo ideal antigo de autogoverno.
Do jarro ao anjo
Nas primeiras cartas italianas — como as Visconti-Sforza do século XV — a Temperança é uma mulher com dois jarros, sem asas, apenas passando água de um ao outro. Foi na tradição de Marselha que a figura ganhou asas e virou um anjo, ainda vertendo entre dois recipientes.[fonte] Waite e Pamela Colman Smith herdaram esse anjo — e o carregaram de símbolo.
O anjo de 1909
Sobre o anjo de Marselha, Smith empilhou uma camada esotérica: o disco solar na testa, o quadrado com um triângulo no peito (e, acima dele, o nome divino em hebraico), um pé na água e outro na terra, e um caminho que sobe até uma coroa dentro da luz.[fonte] Os lírios amarelos à direita e o sol entre as montanhas são acréscimos visuais de Smith, fora do texto de Waite. Waite recusa os sentidos “convencionais” e resume: a carta “tempera, combina e harmoniza as naturezas psíquica e material”.[fonte]
▸ Nota: o riacho que corre para cima
Repare no fio de água entre as duas taças: ele não cai como cairia um líquido — parece subir, ligando o cálice de baixo ao de cima. O texto de Waite não menciona esse detalhe;[fonte] a “mistura impossível” do desenho de Pamela Colman Smith rendeu à carta boa parte de sua fama de enigma.
A camada da Golden Dawn: Samekh e Sagitário
A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas. Deu à carta a letra hebraica Samekh (“apoio”), o signo de Sagitário e o caminho 25 da Árvore da Vida — de Tiphareth a Yesod —, com o título “A Filha dos Reconciliadores, a que Traz Adiante a Vida” no Book T.[fonte] Aqui a carta é lida como o processo alquímico de temperar — combinar fogo e água numa só substância. É daí que vem seu elemento astrológico (fogo, de Sagitário), que contraria a água que a imagem mostra: a correspondência desce do esquema de letras, não da cena pintada.
A “Arte” de Crowley
Décadas depois, no baralho Thoth, Aleister Crowley trocou até o nome: a XIV virou “Arte”. Sua figura andrógina funde fogo e água num caldeirão, cercada pela divisa alquímica Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultam Lapidem — VITRIOL.[fonte] A moderação medieval tinha se tornado, de vez, a operação alquímica da combinação — mais perto do “tempera, combina e harmoniza” de Waite do que da mulher com dois jarros.
Fontes
- Katzenellenbogen, A. Allegories of the Virtues and Vices in Mediaeval Art. Londres: The Warburg Institute, 1939.
- Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
- Crowley, A. The Book of Thoth (Egyptian Tarot). The Equinox III, n. 5. Londres: Ordo Templi Orientis, 1944.