Arcano Lúcido

Arcano Maior · nº 8

A Força

Em estudo
Carta A Força, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

fortaleza · brandura · domínio de si · coragem

elemento:
fogo
atribuído retroativamente
letra-hebraica:
Teth (ט)
atribuído retroativamente
astrologia:
Leão (♌)
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

A Força é o número oito. Waite a descreve como “uma mulher, sobre cuja cabeça paira o mesmo símbolo de vida que vimos na carta do Mago” — a lemniscata —, “fechando a boca de um leão”. O único ponto em que o desenho difere das versões antigas, diz ele, é que “sua fortaleza benéfica já subjugou o leão, que é conduzido por uma corrente de flores”.[fonte]

A carta é a virtude cardeal da Fortaleza. Waite a liga, “num de seus aspectos mais elevados, ao Divino Mistério da União”, e à “força que reside na contemplação”; adverte que ela “nada tem a ver com autoconfiança no sentido comum”. Num de seus sentidos, “o leão significa as paixões, e aquela que se chama Força é a natureza superior em sua libertação”.[fonte]

Como adivinhação, Waite lista “poder, energia, ação, coragem, magnanimidade; também pleno êxito e honras”. Invertida: “despotismo, abuso de poder, fraqueza, discórdia, às vezes até desgraça”.[fonte]

Como usar

“A mulher fecha a boca do leão com as mãos pousadas de leve, sem violência — a tradição chama isso de fortaleza, a força que domina pela brandura.”

Lidar com a própria emoção tem dois caminhos de custo diferente. Suprimir — engolir a reação, manter a cara fechada — mantém o corpo em alerta e prejudica a memória do episódio.[fonte] Reavaliar — reinterpretar a situação antes que ela cresça — reduz o afeto negativo por menos, e quem usa essa via relata mais bem-estar.[fonte] Diante de uma revisão de código ríspida, engolir a irritação deixa você aceso a tarde toda; perguntar “qual é o ponto válido aqui?” fecha a boca do leão.

“O leão é conduzido por uma corrente de flores, não de ferro; Waite fala de uma fortaleza que já subjugou o animal pela doçura.”

Depois de falhar, o reflexo é pegar o chicote — a autocrítica dura, para “não se deixar escapar”. Breines e Chen mostraram o contrário: tratar-se com compaixão após um erro aumenta a motivação de melhorar e de reparar; a dureza empurra para a evitação.[fonte] Depois de um rascunho rejeitado ou de uma decisão que deu errado, a corrente de flores — “não saiu, e vou refazer” — mantém você reabrindo o arquivo; a corrente de ferro faz você fugir dele.

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O que a força bruta não alcança

“A mão da mulher não esmaga o leão: contém-no. A cena é de domínio sem esmagamento — a boca se fecha, o animal não é ferido.”

Apertar um pensamento à força faz ele voltar mais forte. No estudo clássico de Wegner, quem foi instruído a não pensar num urso branco pensou nele mais vezes — inclusive depois que a proibição saiu: o efeito rebote da supressão.[fonte] Vale para a preocupação, o desejo, a raiva — quanto mais se aperta a boca do leão só para calá-lo, mais ele empurra. “Não vou pensar naquela mensagem sem resposta” quase garante que você pense; deixá-lo passar sem alimentá-lo o esvazia mais rápido.

A coragem não é a ausência do medo

“A tradição lê na carta a coragem — e o leão continua um leão: o medo não sumiu, foi conduzido, não morto.”

O corpo agitado antes de um desafio — coração aos pulos, mãos frias — é quase igual na ansiedade e na empolgação; muda só o nome. Brooks pediu a pessoas que dissessem “estou empolgado” antes de cantar, falar em público ou fazer uma prova: saíram-se melhor que as que tentaram “se acalmar”.[fonte] Reinterpretar a ativação como empolgação, em vez de apagá-la, é conduzir o leão em vez de sufocá-lo. Antes de uma demo, “que empolgante” joga mais a favor que “preciso relaxar”.

A natureza quente e a natureza fria

“Duas naturezas na mesma cena: o leão, impulsivo, e a mulher serena que o conduz. Waite lê 'a natureza superior' que domina 'as paixões'.”

Metcalfe e Mischel descrevem dois sistemas: o quente — emocional, reflexo, disparado pelo estímulo (o leão) — e o frio — reflexivo e estratégico (a mulher).[fonte] Autocontrole não é o frio vencer o quente no braço; é esfriar o estímulo, mudar o olhar sobre ele. Nos estudos do marshmallow, crianças que imaginavam o doce como “uma nuvem” esperavam muito mais que quem o via como comida. Diante do impulso de comprar à meia-noite, deixar para amanhã esfria o gatilho; brigar de frente com o desejo, não.

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

Sobre a cabeça da figura paira a lemniscata — para Waite, “o mesmo símbolo de vida que vimos na carta do Mago”.[fonte] Ele liga a Fortaleza ao “Divino Mistério da União” e à innocentia inviolata, e lê a corrente de flores como “o doce jugo e o leve fardo da Lei Divina, quando tomada no mais fundo do coração”; a mulher é “a natureza superior em sua libertação”, que “pisou o leão e o dragão sob os pés”.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn — a letra Teth (“serpente”), o signo de Leão, o fogo, o título “A Filha da Espada Flamejante”. Tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável, sem uso prometido.

Mostrar leitura invertida

Na tradição, a Força invertida é a fortaleza que se perde: o domínio pela brandura vira violência, ou o leão passa a conduzir a mulher — o impulso ganhando da mente que deveria guiá-lo. Waite lista para o reverso “despotismo, abuso de poder, fraqueza, discórdia, às vezes até desgraça”.[fonte]

Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para checar duas bordas. Uma é a boca apertada demais: querer calar um sentimento pela força costuma fazê-lo voltar com mais força — o efeito rebote da supressão.[fonte] A pergunta: o que estou tentando abafar que só cresce quanto mais aperto? A outra é a corrente de ferro no lugar das flores: a autocrítica dura depois de um erro empurra para a evitação, enquanto a brandura sustenta a vontade de consertar.[fonte] Estou me domando com flores ou com chicote?

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Gross, J. J. & John, O. P. “Individual Differences in Two Emotion Regulation Processes: Implications for Affect, Relationships, and Well-Being.” Journal of Personality and Social Psychology 85, n. 2 (2003): 348–362.
  3. Richards, J. M. & Gross, J. J. “Emotion Regulation and Memory: The Cognitive Costs of Keeping One’s Cool.” Journal of Personality and Social Psychology 79, n. 3 (2000): 410–424.
  4. Breines, J. G. & Chen, S. “Self-Compassion Increases Self-Improvement Motivation.” Personality and Social Psychology Bulletin 38, n. 9 (2012): 1133–1143.
  5. Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R. & White, T. L. “Paradoxical Effects of Thought Suppression.” Journal of Personality and Social Psychology 53, n. 1 (1987): 5–13.
  6. Brooks, A. W. “Get Excited: Reappraising Pre-Performance Anxiety as Excitement.” Journal of Experimental Psychology: General 143, n. 3 (2014): 1144–1158.
  7. Metcalfe, J. & Mischel, W. “A Hot/Cool-System Analysis of Delay of Gratification: Dynamics of Willpower.” Psychological Review 106, n. 1 (1999): 3–19.

História da carta

Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como uma virtude que esmagava um leão passou a domá-lo pela brandura, e por que ela troca de número com a Justiça.

A virtude cardeal

Antes de qualquer sentido oculto, A Força é a Fortaleza — uma das virtudes cardeais que entraram na sequência dos trunfos ao lado da Justiça e da Temperança. Nos baralhos italianos do século XV, ela era personificada como a força que subjuga: uma figura com uma clava sobre um leão, ecoando Hércules e o leão de Nemeia — a virtude como poder que quebra o adversário.[fonte]

Da clava à corrente de flores

No Tarô de Marselha, que fixou a imagem clássica por séculos, a cena se acalma: uma mulher abre (ou fecha) a boca de um leão com as mãos, sem arma.[fonte] O gesto ainda é ambíguo — dominar ou libertar? —, mas a clava sumiu. Foi Waite, com Pamela Colman Smith, quem resolveu a ambiguidade a favor da doçura: em 1909, “a fortaleza benéfica já subjugou o leão, que é conduzido por uma corrente de flores”.[fonte] A virtude deixou de ser quem vence o animal e passou a ser quem o conduz sem feri-lo.

O chapéu que virou infinito

Nas versões de Marselha, a mulher usa um chapéu de aba larga cuja curva desenha um oito deitado. Waite e Smith transformaram esse detalhe do figurino em símbolo explícito: tiraram o chapéu e puseram sobre a cabeça dela a lemniscata (∞) — “o mesmo símbolo de vida que vimos na carta do Mago”, diz Waite.[fonte] O que era ornamento virou assinatura: a mesma marca de energia sem fim que paira sobre o mágico da primeira carta.

A troca de número com a Justiça

O traço mais estranho desta carta é o número. No Tarô de Marselha, A Força é o XI e a Justiça, o VIII. A Ordem Hermética da Golden Dawn (1888) inverteu os dois para alinhar os trunfos à ordem do zodíaco, e Waite seguiu a troca em 1909 — sem explicar o motivo: “por razões que me satisfazem, esta carta foi permutada com a da Justiça, que costuma levar o número oito”.[fonte] Por isso a numeração depende da escola: VIII na linha Rider-Waite-Smith, XI no Marselha.

▸ Nota: por que a Golden Dawn trocou os números

A Golden Dawn atribuiu os doze signos aos trunfos na ordem do zodíaco. Nessa contagem, o signo de Leão cai antes de Libra — mas a Força (Leão) vinha depois da Justiça (Libra) na numeração de Marselha. Trocar os dois números pôs os signos de volta em sequência: a Força assumiu o VIII, a Justiça, o XI.[fonte] Waite adotou a troca em 1909, mas não expôs essa lógica ao leitor.[fonte]

A camada da Golden Dawn e a “Luxúria” de Crowley

A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas: deu à carta a letra hebraica Teth (“serpente”), o signo de Leão — regido pelo Sol, signo de fogo —, no caminho 19 da Árvore da Vida, de Chesed a Geburah, com o título “A Filha da Espada Flamejante” no Book T.[fonte] Décadas depois, Aleister Crowley, no baralho Thoth, manteve a troca de número e o signo de Leão, mas rebatizou a carta de “Luxúria” (Lust): a mulher já não fecha a boca do leão — cavalga uma besta de sete cabeças, e a força vira o gozo pleno da energia vital, não seu domínio.[fonte] A mesma cena — mulher e fera — leu-se como controle numa escola e como entrega noutra.

Fontes
  1. Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
  2. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
  3. Crowley, A. The Book of Thoth (Egyptian Tarot). The Equinox III, n. 5. Londres: Ordo Templi Orientis, 1944.
  4. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.