Arcano Lúcido

Arcano Menor · nº 14

Rei de Paus

Em estudo
Carta Rei de Paus, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

liderança visionária · ousadia empreendedora · carisma mobilizador · energia dirigida a um propósito

elemento:
fogo
atribuído retroativamente
elemento:
Ar de Fogo
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

O Rei de Paus fecha a corte do naipe. Waite descreve a figura em poucas palavras: sua natureza é “morena, ardente, ágil, animada, apaixonada, nobre”; ele ergue um cetro florido e se liga ao símbolo do leão, gravado no encosto do trono.[fonte]

Na imagem de 1909, salamandras — criatura de fogo que, na tradição, atravessa as chamas sem se queimar — cobrem seu manto e o tecido do trono; uma pequena salamandra viva repousa perto de seus pés. O cetro floresce na ponta: fogo que gera, não só consome.

Como sentido adivinhatório, Waite é sucinto: “homem moreno, amigável, homem do campo, geralmente casado, honesto e consciencioso”; a carta “sempre significa honestidade”, e pode indicar “notícia de uma herança inesperada a cair em breve.” Invertido: “bom, porém severo; austero, ainda que tolerante.”[fonte]

A leitura mais difundida hoje se distancia desse tom doméstico e vê na figura a liderança visionária e ousada — energia de fogo dirigida a um propósito, carisma que mobiliza outros para dentro da própria causa.

Como usar

“O Rei segura erguido um cetro florido — fogo que não só arde, mas gera algo novo.”

Baum, Locke e Kirkpatrick acompanharam fundadores de empresas por seis anos: quem tinha uma visão clara do negócio e a comunicava com entusiasmo aos outros via a empresa crescer mais do que quem só a guardava para si.[fonte] Não basta imaginar o projeto ousado — apresentá-lo em voz alta, a investidores ou à própria equipe, já muda o resultado.

“A tradição lê no Rei o carisma que arrasta os outros para dentro da própria causa, mais do que a autoridade fria do cargo.”

Howell e Frost fizeram atores liderarem o mesmo grupo de trabalho de três formas — carismática, estruturada ou solidária — na mesma tarefa. O grupo sob liderança carismática rendeu mais e relatou mais satisfação, mesmo com a tarefa idêntica nos três casos.[fonte] Comunicar entusiasmo real por um projeto, não só distribuir tarefas, já muda o desempenho de quem executa.

O naipe (fogo) segue o sistema comum a todo menor; a lógica das quatro cortes — de Valete a Rei — está em Paus e Os Arcanos Menores.

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O contágio da meta

“A tradição vê nesse Rei quem contagia os outros com a própria ambição, sem precisar convencer ninguém em palavras.”

Aarts, Gollwitzer e Hassin mostraram que só perceber outra pessoa perseguindo um objetivo com esforço visível já faz quem observa adotar esse mesmo objetivo, mesmo sem intenção consciente de imitar.[fonte] Um líder que persegue a própria meta às claras — sem discurso motivacional — já planta essa meta em quem está perto.

A confiança que arrisca

“A tradição lê no Rei de Paus a ousadia que arrisca um projeto novo — não a cautela de quem só administra o que já existe.”

Chen, Greene e Crick compararam empreendedores e gerentes em tarefas ligadas a abrir um negócio — inovar, assumir risco, gerir pessoas. O que mais separava os dois grupos era a confiança de conseguir inovar e assumir risco, não a confiança de gerir o que já existia.[fonte] Antes de abrir uma frente nova — um produto, um projeto pessoal —, essa é a confiança específica que pesa, não a confiança genérica.

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

A Golden Dawn atribuiu a cada corte um segundo elemento, cruzado com o do naipe: o Rei de Paus é Ar de Fogo — quem comanda o elemento de fora, dirigindo-o, em vez de vivê-lo por dentro (a Rainha) ou persegui-lo em ação (o Cavaleiro).[fonte] É camada retroativa, acrescentada quatro séculos depois da carta. Os próprios nomes de corte da Golden Dawn (Princesa, Príncipe, Rainha, Rei) não mapeiam um-para-um nos nomes do Rider-Waite-Smith (Valete, Cavaleiro, Rainha, Rei) — sistematização de outra escola, não equivalência exata.[fonte] Fica registrada aqui como tradição, sem correlato psicológico verificável e sem uso prometido.

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
  3. Wang, R. (1983). The Qabalistic Tarot: A Textbook of Mystical Philosophy. Samuel Weiser.
  4. Baum, J. R., Locke, E. A. & Kirkpatrick, S. A. “A Longitudinal Study of the Relation of Vision and Vision Communication to Venture Growth in Entrepreneurial Firms.” Journal of Applied Psychology 83, n. 1 (1998): 43–54.
  5. Howell, J. M. & Frost, P. J. “A Laboratory Study of Charismatic Leadership.” Organizational Behavior and Human Decision Processes 43, n. 2 (1989): 243–269.
  6. Aarts, H., Gollwitzer, P. M. & Hassin, R. R. “Goal Contagion: Perceiving Is for Pursuing.” Journal of Personality and Social Psychology 87, n. 1 (2004): 23–37.
  7. Chen, C. C., Greene, P. G. & Crick, A. “Does Entrepreneurial Self-Efficacy Distinguish Entrepreneurs from Managers?” Journal of Business Venturing 13, n. 4 (1998): 295–316.