Arcano Lúcido

Arcano Maior · nº 6

Os Enamorados

Em estudo
Carta Os Enamorados, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

amor · união · escolha · valores

elemento:
ar
atribuído retroativamente
letra-hebraica:
Zayin (ז)
atribuído retroativamente
astrologia:
Gêmeos (♊)
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

Os Enamorados é o número seis. Waite descreve: “o sol brilha no zênite, e sob ele uma grande figura alada de braços estendidos derrama influências”. No primeiro plano, “duas figuras humanas, homem e mulher, desnudas uma diante da outra, como Adão e Eva quando ocuparam pela primeira vez o paraíso terrestre”. Atrás do homem, “a Árvore da Vida, de doze frutos”; atrás da mulher, “a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, em torno da qual a serpente se enrosca”.[fonte]

As figuras, diz ele, “sugerem juventude, virgindade, inocência e amor antes de ser contaminado pelo desejo material grosseiro”. É, “em toda simplicidade, a carta do amor humano”. Waite frisa que ela “substitui, por recurso aos primeiros princípios, a antiga carta do casamento” e “as tolices posteriores que representavam o homem entre o vício e a virtude”.[fonte]

Essa substituição importa: no baralho anterior, a carta era a da escolha — um jovem entre dois caminhos. Waite trocou a escolha pela união (Adão e Eva), mas o sentido antigo sobreviveu, e a tradição moderna lê a carta pelos dois lados: o amor e a decisão. Como adivinhação, Waite lista “atração, amor, beleza, provações superadas”. Invertido: “fracasso, projetos insensatos; por outro relato, casamento frustrado e contrariedades de toda sorte”.[fonte]

Como usar

“Na tradição moderna, Os Enamorados é a carta da escolha — a decisão que precisa estar alinhada com os seus valores.”

Nomear o que se valoriza antes de decidir tem efeito medido. Revisando duas décadas de estudos, Cohen e Sherman descrevem a autoafirmação de valores: refletir sobre um valor central, antes de encarar algo que ameaça o ego, reduz a defensividade e deixa a pessoa mais aberta à informação que contraria sua preferência. Diante de duas ofertas de trabalho ou de dois caminhos de arquitetura, escrever primeiro “o que eu não abro mão aqui” desarma a torcida por uma resposta pronta — e você pesa a outra com menos ego em jogo.[fonte]

“A carta mostra duas figuras nuas, sem véu uma diante da outra — a tradição a lê como o amor e a união.”

Há um caminho medido para a proximidade: abrir-se aos poucos e ser correspondido. Aron e colegas puseram estranhos a trocar perguntas de intimidade crescente por meia hora; a autorrevelação mútua e gradual gerou mais proximidade que uma conversa comum — o hoje famoso estudo das “36 perguntas”. O que aproxima não é o tempo junto, é a vulnerabilidade recíproca. Numa equipe nova, dizer no que você ainda patina — e ver o outro fazer o mesmo — constrói confiança mais rápido que meses de convívio guardado.[fonte]

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O que sustenta o vínculo

“Os Enamorados é a carta do amor que se firma, do par que dura.”

O que mantém uma relação é medível — e não é a ausência de atrito. Gottman e Levenson filmaram casais discutindo e os acompanharam por anos: os que ficaram juntos mantinham as interações positivas bem acima das negativas; os que se separaram, não.[fonte] Gottman resumiu depois o equilíbrio saudável em cerca de cinco gestos positivos para cada negativo.[fonte] Vale além do casal: numa parceria de trabalho ou numa amizade, um desentendimento não afunda o vínculo — o que afunda é a conta de positivo e negativo virar.

A atração que cresce com a repetição

“A carta é a atração, o encanto — às vezes lido como amor 'à primeira vista'.”

Boa parte da atração não é um raio: é repetição. Zajonc mostrou o efeito de mera exposição — quanto mais vemos algo neutro, mais tendemos a gostar dele, sem que nada nele mude.[fonte] A familiaridade, por si, produz preferência. Serve para o rosto que passa a agradar depois de encontros repetidos — e para além de gente: a música que “cresce” na segunda audição, a interface estranha que fica intuitiva de tanto usar, a ideia rejeitada que convence na terceira vez que aparece.

Dois que viram um — e o eu que se alarga

“A tradição fala da fusão dos amantes, 'dois que viram um'.”

A união íntima muda o próprio eu, de um jeito que dá para medir. O modelo de autoexpansão de Aron descreve como, numa relação próxima, a gente incorpora ao autoconceito os recursos, as perspectivas e as identidades do outro — passa a saber e a poder o que antes era só dele.[fonte] Não é romântico só: um bom parceiro de projeto ou um mentor entra assim, e você sai com repertório que não tinha. O vínculo não soma duas pessoas fechadas — alarga cada uma.

Escolher é comprometer-se

“No Tarô de Marselha, um jovem entre duas mulheres e um cupido mirando do alto: a carta da escolha entre dois caminhos.”

Escolher de fato — e fechar a porta — costuma deixar a gente mais satisfeito que manter a opção em aberto. Gilbert e Ebert mostraram que decisões irreversíveis são vividas com mais contentamento que as reversíveis, e que as pessoas erram ao prever isso: acham que vão querer poder voltar atrás, mas quem pode voltar atrás fica remoendo.[fonte] A carta da escolha não pede só que se decida entre dois caminhos — pede que se comprometa com um. Largar um layout e assumir o outro rende mais que deixar os dois meio abertos “por segurança”.

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

Para Waite, a cena é bíblica: o homem e a mulher são “como Adão e Eva quando ocuparam pela primeira vez o paraíso terrestre”, entre a Árvore da Vida, de doze frutos, e a Árvore do Conhecimento, com a serpente.[fonte] Em “alto sentido”, diz ele, a carta é “um mistério do Pacto e do Sábado”, e o amor humano nela aparece “como parte do caminho, da verdade e da vida”.[fonte] A mulher remete à “queda do homem”, mas antes como “a operação de uma Lei Secreta da Providência” — para Waite, “outro indício do grande mistério da feminilidade”.[fonte] Esses sentidos — mais a leitura moderna do par como almas gêmeas ou união sagrada — moram aqui: herança simbólica, sem correlato verificável, sem uso prometido.

Mostrar leitura invertida

Na tradição moderna, Os Enamorados invertido é o vínculo em desarmonia ou a escolha contra si: a relação que desanda, o desalinhamento de valores, a decisão tomada contra o que se valoriza — ou a fuga de decidir. (O próprio Waite lista para o reverso algo mais seco — “fracasso, projetos insensatos” e “casamento frustrado”; a leitura fina de desalinhamento é folclore posterior, não dele.)[fonte]

Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para checar essas bordas. Uma é a escolha que se afasta do que importa: se a autoafirmação abre você ao que contraria a preferência, o reverso pergunta se a decisão está sendo puxada pelo ego, não pelo valor.[fonte] A outra é o vínculo cuja conta virou — quando o negativo passou a pesar mais que o positivo, e a proximidade que a abertura mútua construiu foi se fechando.[fonte][fonte]

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Cohen, G. L. & Sherman, D. K. “The Psychology of Change: Self-Affirmation and Social Psychological Intervention.” Annual Review of Psychology 65 (2014): 333–371.
  3. Aron, A., Melinat, E., Aron, E. N., Vallone, R. D. & Bator, R. J. “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings.” Personality and Social Psychology Bulletin 23, n. 4 (1997): 363–377.
  4. Gottman, J. M. & Levenson, R. W. “Marital Processes Predictive of Later Dissolution: Behavior, Physiology, and Health.” Journal of Personality and Social Psychology 63, n. 2 (1992): 221–233.
  5. Gottman, J. M. Why Marriages Succeed or Fail: And How You Can Make Yours Last. Nova York: Simon & Schuster, 1994.
  6. Zajonc, R. B. “Attitudinal Effects of Mere Exposure.” Journal of Personality and Social Psychology Monograph Supplement 9, n. 2, pt. 2 (1968): 1–27.
  7. Aron, A., Lewandowski, G. W., Mashek, D. & Aron, E. N. “The Self-Expansion Model of Motivation and Cognition in Close Relationships.” In: Simpson, J. A. & Campbell, L. (eds.), The Oxford Handbook of Close Relationships. Oxford: Oxford University Press, 2013: 90–115.
  8. Gilbert, D. T. & Ebert, J. E. J. “Decisions and Revisions: The Affective Forecasting of Changeable Outcomes.” Journal of Personality and Social Psychology 82, n. 4 (2002): 503–514.

História da carta

Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como o casal renascentista sob Cupido virou o jovem que escolhe de Marselha — e como Waite o transformou em Adão e Eva no Éden.

O amor sob Cupido

Nos baralhos italianos do século XV, a carta é L’Amore ou Gli Amanti — o amor, os amantes. No luxuoso Visconti-Sforza, um casal está de pé sob um dossel, de mãos dadas; acima deles paira Cupido, de olhos vendados, com o arco.[fonte] É uma cena nupcial: o par e o deus do amor que os une. Não há, ainda, nenhuma ideia de escolha — só a união.

L’Amoureux: o jovem que escolhe, em Marselha

No Tarô de Marselha, que fixou a imagem por séculos, o sentido muda. O nome está no singularL’Amoureux, “o apaixonado” —, e a cena é outra: um jovem parado entre duas mulheres, uma mais velha e uma mais jovem. Acima, num sol radiante, um cupido alado retesa o arco e mira uma flecha para baixo.[fonte] A carta deixou de ser o casal e virou o momento da escolha: o jovem entre dois caminhos, sem saber para onde a flecha aponta.

A escolha entre o vício e a virtude

A partir do fim do século XVIII, os ocultistas releram os trunfos como alegorias morais, e as duas mulheres ganharam nomes: uma seria a virtude, outra o vício — e a carta, a hora em que o homem decide entre elas.[fonte] Foi essa leitura moralizante que fixou “escolha” como o coração da carta, um sentido que sobrevive até hoje, mesmo depois de a imagem ter mudado.

A camada esotérica

A Ordem Hermética da Golden Dawn (1888) acrescentou as correspondências ocultas: deu à carta a letra hebraica Zayin (“espada”), ligada ao signo de Gêmeos — os dois gêmeos, regidos por Mercúrio —, no caminho 17 da Árvore da Vida, de Binah a Tiphareth, com o título “Os Filhos da Voz; o Oráculo dos Deuses Poderosos” no Book T.[fonte] A dualidade de Gêmeos casa tanto com o par quanto com a escolha entre dois — as duas leituras que a carta acumulou.

1909: o jovem que escolhe vira Adão e Eva

Foi Waite, com Pamela Colman Smith, quem rompeu com a cena de Marselha. Ele descartou de propósito “a antiga carta do casamento” e “as tolices posteriores que representavam o homem entre o vício e a virtude”, e voltou, disse ele, “aos primeiros princípios”.[fonte] No lugar do jovem entre duas mulheres, pôs Adão e Eva nus no paraíso: atrás dele, a Árvore da Vida de doze frutos; atrás dela, a Árvore do Conhecimento com a serpente. No alto, o cupido de Marselha vira um anjo de braços abertos, derramando bênção sob o sol a pino.[fonte]

A troca inverte o eixo da carta. De uma cena de escolha (um homem diante de dois destinos), ela volta a ser uma cena de união (o casal primordial abençoado do alto) — mas agora carregada de mito bíblico. O nome em português, Os Enamorados, no plural, segue a leitura de Waite: não é mais o apaixonado que decide, são os dois. Ainda assim, a “escolha” de Marselha nunca saiu: a tradição moderna lê a carta pelos dois lados, o amor e a decisão — e é essa dupla herança que ela carrega hoje.

Fontes
  1. Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
  2. Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
  3. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
  4. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.