Arcano Lúcido

Arcano Maior · nº 19

O Sol

Em estudo
Carta O Sol, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

alegria · vitalidade · clareza · sucesso

elemento:
fogo
atribuído retroativamente
letra-hebraica:
Resh (ר)
atribuído retroativamente
planeta:
Sol (☉)
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

O Sol é o arcano XIX. Waite descreve “a criança nua montada num cavalo branco e exibindo um estandarte vermelho” como “o melhor simbolismo ligado a esta carta”. Ao fundo há um muro; atrás dele, girassóis; acima, um sol de rosto humano, com raios retos e ondulados alternados.[fonte]

A criança sai “do jardim murado da vida sensível, seguindo a jornada de volta para casa”; é “a grande e sagrada luz que vai à frente da procissão sem fim da humanidade”. A carta, diz Waite, “significa o trânsito da luz manifesta deste mundo, representada pelo glorioso sol da terra, para a luz do mundo por vir”.[fonte]

Waite a contrasta com a Lua: este é “o sol da consciência no espírito — a luz direta, por oposição à refletida”. A humanidade “tornou-se ali uma criancinha — criança no sentido de simplicidade, inocência no sentido de sabedoria”. Como adivinhação, ele resume: “felicidade material, casamento afortunado, contentamento”. Invertida: “o mesmo, em sentido menor”.[fonte]

Como usar

“Waite resume O Sol como 'felicidade material, casamento afortunado, contentamento' — a carta em que a boa sorte chega.”

A tradição põe a felicidade no fim, como prêmio. Uma meta-análise de 225 estudos inverte parte da seta: estados positivos frequentes não só seguem o sucesso — eles o antecedem, no trabalho, nas relações e na saúde, porque quem sente bem-estar age de formas que produzem bons resultados.[fonte] Não adie o ânimo para “quando o projeto entregar”: um clima positivo agora alimenta o próprio desempenho que você persegue.

“A humanidade 'tornou-se ali uma criancinha — simplicidade, inocência no sentido de sabedoria' — o olhar que ainda não foi treinado.”

Quem domina um assunto repete a solução de sempre e deixa de ver a mais simples ao lado. Luchins mostrou isso: depois de resolver vários problemas por um método longo, as pessoas insistiam nele mesmo quando havia um atalho óbvio — o efeito Einstellung, a mente “mecanizada” pelo hábito.[fonte] Travado num bug ou num texto, descreva o problema a quem não é da área: o olho não-treinado costuma achar o que o seu já pulou.

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O que não se esconde

“A criança está inteiramente nua — nada oculto —, saindo 'do jardim murado da vida sensível'.”

Guardar um segredo pesa menos pelo ato de esconder e mais por voltar a ele sozinho. Slepian acompanhou milhares de segredos e achou que o dano ao bem-estar vinha sobretudo de ruminar a coisa nos momentos livres, não do disfarce diante dos outros.[fonte] O erro que você não contou no trabalho custa na cabeça, na volta para casa. Trazer à tona encerra o laço — o preço estava na remoedura, não na exposição.

Saborear a luz

“O sol pleno, de rosto sereno, ilumina a cena inteira — o momento bom, escancarado à vista.”

O bem-estar de um momento bom não vem sozinho: depende de você parar para atendê-lo. Jose, Lim e Bryant seguiram pessoas dia a dia e viram que saborear — demorar-se de propósito na experiência positiva — elevava a felicidade relatada; correr para a próxima tarefa a dissipava.[fonte] Acabou de entregar, de fechar o acordo? Registre a vitória, em voz alta, antes de abrir a aba seguinte.

Conduzir sem esporas

“A criança guia o cavalo sem sela nem rédeas; para Waite, a mente 'conduz a natureza animal num estado de perfeita conformidade'.”

Mover-se por pressão rende pouco e por pouco tempo. Deci e Ryan separam motivação autônoma — agir porque a coisa importa para você — de controlada — agir por cobrança externa; a primeira sustenta esforço, criatividade e bem-estar muito melhor.[fonte] Para conduzir a si mesmo ou um time, a “conformidade perfeita” vem do alinhamento, não da espora: ligue a tarefa a um porquê próprio antes de apertar o prazo.

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

Waite lê a carta em chave espiritual e sem correlato verificável: a “luz do mundo por vir”, a criança que “traz o selo da Natureza e da Arte” e “significa o mundo restaurado”, o espírito que desperta “na consciência acima da mente natural”.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn: a letra Resh (“cabeça”), o Sol (☉) como correspondência astrológica, o caminho 30 na Árvore da Vida e o título “Senhor do Fogo do Mundo” no Book T — de onde desce o elemento fogo atribuído à carta.[fonte] O estandarte vermelho, os girassóis, os raios retos e ondulados, o cavalo branco — tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável e sem uso prometido.

Mostrar leitura invertida

Na tradição, Waite dá à carta invertida “o mesmo, em sentido menor” — a mesma felicidade e contentamento, atenuados.[fonte] Muitos leitores modernos leem o reverso como alegria adiada, otimismo forçado ou luz que custa a chegar.

Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para achar onde a luz está velada. Uma pergunta: estou adiando o ânimo para depois do resultado? — se sim, lembre que o bem-estar também é motor, não só prêmio.[fonte] Outra: estou repetindo o método de sempre num problema que pede olho novo? — o passo é mostrá-lo a quem não é da área.[fonte]

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Lyubomirsky, S., King, L. & Diener, E. “The Benefits of Frequent Positive Affect: Does Happiness Lead to Success?” Psychological Bulletin 131, n. 6 (2005): 803–855.
  3. Luchins, A. S. “Mechanization in Problem Solving: The Effect of Einstellung.” Psychological Monographs 54, n. 6 (1942): i–95.
  4. Slepian, M. L., Chun, J. S. & Mason, M. F. “The Experience of Secrecy.” Journal of Personality and Social Psychology 113, n. 1 (2017): 1–33.
  5. Jose, P. E., Lim, B. T. & Bryant, F. B. “Does Savoring Increase Happiness? A Daily Diary Study.” The Journal of Positive Psychology 7, n. 3 (2012): 176–187.
  6. Ryan, R. M. & Deci, E. L. “Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being.” American Psychologist 55, n. 1 (2000): 68–78.
  7. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)

História da carta

Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como o sol que uma criança erguia nas mãos virou o sol que brilha sobre uma criança a cavalo.

No começo, uma criança segurando o sol

A cena que hoje reconhecemos — a criança montada — não é a mais antiga. Nos baralhos italianos pintados à mão do século XV, como o Visconti-Sforza, a carta do Sol não traz cavalo nem muro: mostra um putto — uma criança alada — de pé sobre nuvens, erguendo nas mãos um sol radiante de rosto humano.[fonte] O arranjo famoso se fixaria bem depois.

“Le Soleil”: as duas crianças de Marselha

No Tarô de Marselha a carta se chama Le Soleil — “o Sol” — e traz o motivo intermediário: um grande sol de rosto, pingando gotas, e, embaixo, duas crianças nuas diante de um muro baixo, uma tocando a outra.[fonte] Eram lidas ora como duas crianças, ora como um par; o cenário estava dado muito antes de qualquer leitura psicológica.

O redesenho de Waite e Smith (1909)

Waite e Pamela Colman Smith reduziram as duas crianças a uma só e a puseram sobre um cavalo branco, com um estandarte vermelho na mão. Mantiveram o muro de Marselha, plantaram girassóis atrás dele e fixaram o sol com raios retos e ondulados alternados.[fonte] Onde Marselha via uma cena luminosa, Waite pôs uma leitura própria: o “trânsito da luz manifesta deste mundo… para a luz do mundo por vir”, com a humanidade tornada “uma criancinha”.[fonte]

▸ Nota: o cavalo sem sela

Waite não explica por que trocou as duas crianças por uma sozinha a cavalo, nem descreve arreios: a criança monta em pelo, sem sela nem rédeas visíveis. A leitura da montaria como domínio sereno da “natureza animal” é dele — a Marselha não tinha cavalo nenhum. É interpretação de detalhe, não algo que a cena antiga já carregasse.

A camada da Golden Dawn: Resh e o Sol

A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas da carta. Deu-lhe a letra hebraica Resh (“cabeça”), a própria luminária Sol (☉) como correspondência astrológica e o caminho 30 da Árvore da Vida — de Hod a Yesod —, com o título “Senhor do Fogo do Mundo” no Book T.[fonte] É desse título que desce o elemento fogo hoje atribuído à carta; ainda assim é camada acrescentada séculos depois da carta pintada, não propriedade que o Sol de Marselha já carregasse.[fonte]

Fontes
  1. Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
  2. Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
  3. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  4. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)