Arcano Lúcido

Arcano Maior · nº 15

O Diabo

Em estudo
Carta O Diabo, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

apego · vício · compulsão · restrição

elemento:
terra
atribuído retroativamente
letra-hebraica:
Ayin (ע)
atribuído retroativamente
astrologia:
Capricórnio (♑)
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

O Diabo é o arcano XV. Waite descreve “o Bode Cornígero de Mendes, com asas como as de um morcego”, de pé sobre um altar, com “um pentagrama invertido na testa”. A mão direita se ergue — “o inverso da bênção que o Hierofante dá na quinta carta”; na esquerda, “uma grande tocha inflamada, voltada para baixo, para a terra”.[fonte]

Diante do altar há “uma argola, da qual partem duas correntes até o pescoço de duas figuras, um homem e uma mulher” — para Waite, “análogas às da quinta carta, como Adão e Eva após a Queda. Nisto está a corrente e a fatalidade da vida material”. As figuras têm cauda, “para significar a natureza animal”, mas “há inteligência humana nos rostos, e aquele que se ergue acima delas não será seu senhor para sempre”.[fonte]

Como adivinhação, Waite lista “devastação, violência, veemência, esforços extraordinários, força, fatalidade; aquilo que é predestinado, mas não por isso mau”. Invertida: “fatalidade maligna, fraqueza, mesquinhez, cegueira”.[fonte]

Como usar

“As correntes no pescoço dos dois cativos são frouxas — laços largos que sairiam pela cabeça; a leitura tradicional diz que eles poderiam se soltar e não o fazem.”

Depois de tentativas que fracassaram sem que nada do que você fizesse importasse, é comum parar de tentar — mesmo quando a saída passa a existir. Seligman e Maier chamaram isso de impotência aprendida: cães expostos a choques inescapáveis não fugiam depois, com a porta aberta.[fonte] Hiroto e Seligman viram o mesmo em pessoas.[fonte] O passo útil é testar se a trava ainda existe. Aquela regra que você presume intocável: pergunte a quem decide antes de tratá-la como muro.

“Os dois cativos estão presos por uma argola fixa no altar — a corrente sai de um ponto de ancoragem, não deles.”

Boa parte do que repetimos não vem de escolha renovada, mas do contexto que dispara o gesto. Wood, Quinn e Kashy acompanharam o dia a dia de pessoas: perto de metade das ações se repetia quase todo dia, no mesmo lugar — piloto automático, não decisão.[fonte] Força de vontade sozinha escorrega, porque o gatilho continua ali. Para largar o celular à noite, tire-o do quarto: mudar o ambiente corta a corrente melhor que prometer resistir.

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O ganho imediato que algema

“A tocha aponta para baixo, para a terra, e a tradição lê a carta como o apego ao que é material e imediato.”

Preferimos o pequeno ganho agora ao maior mais tarde — e quanto mais perto a recompensa imediata, mais ela distorce a conta. Ainslie descreveu essa curva íngreme de desconto: o valor de uma recompensa desaba conforme ela se afasta no tempo, e isso inverte preferências na hora H.[fonte] Nomear a troca no momento da escolha ajuda. A “gambiarra agora” que poupa uma hora hoje e custa três na semana que vem: escrita lado a lado, a corrente fica visível.

A parede que ninguém construiu

“A leitura tradicional insiste que os cativos poderiam sair — a prisão é aceita, não imposta.”

Às vezes a trava não é falta de ânimo para sair, e sim não enxergar a saída. Duncker mostrou isso no “problema da vela”: quem recebia tachinhas dentro de uma caixa custava a ver que a própria caixa servia de suporte — fixava a caixa como “recipiente” e não testava outro uso.[fonte] É a fixação funcional. O antídoto é banal: liste as restrições que você está supondo e marque quais alguém já verificou de fato. Boa parte é herança, não regra.

Correr atrás e ficar no mesmo lugar

“A leitura ordinária lê o Diabo como cobiça e apego material — querer sempre mais.”

A cobiça promete que o próximo ganho enfim satisfaz — mas nos adaptamos ao que conquistamos e voltamos a um patamar de base. Brickman e colegas compararam ganhadores de loteria a pessoas comuns: os ganhadores não eram mais felizes e tiravam menos prazer de prazeres simples.[fonte] É a esteira hedônica — você corre e fica no mesmo lugar. Vale notar quando a busca é por um degrau que vai se dissolver: trocar de carro raramente move o ponteiro por muito tempo.

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

Waite chama a figura de “Bode Cornígero de Mendes” e coloca “o sinal de Mercúrio na boca do estômago”; a mão erguida é “o inverso da bênção” do Hierofante, e a tocha invertida com o pentagrama de ponta para baixo marcam o espírito submetido à matéria.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn: a letra Ayin (“olho”), o signo de Capricórnio, o caminho 26 na Árvore da Vida e o título “Senhor das Portas da Matéria; Filho das Forças do Tempo”.[fonte] O Bode de Mendes, o pentagrama invertido, a bênção às avessas — tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável e sem uso prometido.

Mostrar leitura invertida

Na tradição, Waite lista para o Diabo invertido “fatalidade maligna, fraqueza, mesquinhez, cegueira”.[fonte] Muitos leitores modernos leem o reverso como o começo da soltura: a corrente afrouxando, a saída ficando visível.

Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para achar onde uma amarra sua já dá sinal de folga. Uma pergunta: que trava eu deixei de testar porque cansei de tentar? — vale checar se a saída reapareceu.[fonte] Outra: que gatilho no meu ambiente dispara o hábito que quero largar? — mexer no contexto solta mais que prometer resistir.[fonte]

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Seligman, M. E. P. & Maier, S. F. “Failure to Escape Traumatic Shock.” Journal of Experimental Psychology 74, n. 1 (1967): 1–9.
  3. Hiroto, D. S. & Seligman, M. E. P. “Generality of Learned Helplessness in Man.” Journal of Personality and Social Psychology 31, n. 2 (1975): 311–327.
  4. Wood, W., Quinn, J. M. & Kashy, D. A. “Habits in Everyday Life: Thought, Emotion, and Action.” Journal of Personality and Social Psychology 83, n. 6 (2002): 1281–1297.
  5. Ainslie, G. “Specious Reward: A Behavioral Theory of Impulsiveness and Impulse Control.” Psychological Bulletin 82, n. 4 (1975): 463–496.
  6. Duncker, K. “On Problem-Solving.” Psychological Monographs 58, n. 5 (1945): i–113.
  7. Brickman, P., Coates, D. & Janoff-Bulman, R. “Lottery Winners and Accident Victims: Is Happiness Relative?” Journal of Personality and Social Psychology 36, n. 8 (1978): 917–927.
  8. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)

História da carta

Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como um demônio medieval genérico virou o Baphomet ocultista de 1909, e por que a corrente e os dois cativos já estavam lá antes de Waite.

A carta que se perdeu

O Diabo tem uma lacuna no começo da sua história: no mais célebre baralho pintado à mão do século XV, o Visconti-Sforza, a carta do Diabo simplesmente não sobreviveu — está entre as que faltam no conjunto, ao lado da Torre.[fonte] Não se sabe se foi perdida ou se nunca chegou a ser pintada. Assim, as imagens mais antigas que temos do arcano XV vêm dos baralhos posteriores, de tipo Marselha.

O demônio de Marselha: a corrente já estava lá

No Tarô de Marselha, o Diabo é uma figura cornuda e alada sobre um pedestal, empunhando uma tocha, e dois pequenos demônios presos pelo pescoço por uma corrente ao pé do trono.[fonte] Os dois cativos acorrentados — o motivo central que Waite herdaria — já estavam pintados séculos antes dele. O que mudava era o sentido: ali, o Diabo era o inferno cristão literal, não uma alegoria do apego.

O Baphomet de Éliphas Lévi

O salto para a imagem de 1909 passa por um desenho famoso. Em Dogme et Rituel de la Haute Magie, o ocultista francês Éliphas Lévi desenhou o “Baphomet, o Bode de Mendes”: um bode alado sentado, com uma tocha flamejante entre os chifres, seios, e os braços marcados SOLVE e COAGULA, um apontando para cima e outro para baixo.[fonte] Waite conhecia essa figura de perto — ele mesmo traduziu Lévi para o inglês. O “Bode Cornígero de Mendes” que Waite nomeia na sua carta é, em linha direta, o Baphomet de Lévi.[fonte]

O redesenho de Waite e Smith (1909)

Waite e Pamela Colman Smith adaptaram o Baphomet e o amarraram deliberadamente ao Hierofante: a mão erguida do Diabo é “o inverso da bênção” que o Hierofante dá, e os dois acorrentados espelham os dois acólitos ajoelhados daquela carta — “como Adão e Eva após a Queda”.[fonte] Duas mudanças fixaram o sentido moderno. Waite inverteu o pentagrama na testa — ponta para baixo, a matéria sobre o espírito. E Smith pintou as correntes frouxas: laços largos no pescoço dos cativos, que passariam pela cabeça. A prisão virou, de leitura, algo que se aceita mais do que se sofre.

▸ Nota: as caudas dos cativos: uva e fogo

Repare nas duas figuras acorrentadas: a mulher tem uma cauda que termina em um cacho de uvas, o homem, uma que termina em chamas. São detalhes de Pamela Colman Smith que a tradição leu como os apetites que prendem cada um — o prazer e o desejo —, o oposto vegetal e ígneo da mesma “natureza animal” que Waite menciona.[fonte]

A camada da Golden Dawn: Capricórnio e a porta da matéria

A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas da carta. Deu-lhe a letra hebraica Ayin (“olho”), o signo de Capricórnio e o caminho 26 da Árvore da Vida, de Tiphareth a Hod, com o título “O Senhor das Portas da Matéria; o Filho das Forças do Tempo” no Book T.[fonte] Capricórnio, regido por Saturno, amarrou o tema: o signo da matéria, do limite e da estrutura. Ainda assim é camada acrescentada séculos depois do demônio pintado, não propriedade que a alegoria medieval já carregava.[fonte]

O Diabo de Crowley: Pã, não prisão

No baralho Thoth, Aleister Crowley virou a carta do avesso. Manteve o bode e Capricórnio, mas trocou o cativeiro pela exuberância: seu Diabo é , a força criadora da vida, uma imagem priápica que celebra a matéria em vez de acorrentá-la.[fonte] Onde Waite via a fatalidade da vida material, Crowley leu o impulso vital — o mesmo bode, sentido inverso.

Fontes
  1. Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
  2. Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
  3. Lévi, Éliphas. Dogme et Rituel de la Haute Magie. Paris: Germer Baillière, 1854–1856. (Trad. de A. E. Waite, Transcendental Magic, 1896.)
  4. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  5. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
  6. Crowley, A. The Book of Thoth (Egyptian Tarot). The Equinox III, n. 5. Londres: Ordo Templi Orientis, 1944.