Arcano Maior · nº 10
A Roda da Fortuna
Em estudo
Leitura tradicional
A Roda da Fortuna é o número dez. No alto de tudo, uma esfinge azul empunha uma espada, equilibrada sobre a roda; à direita sobe Hermanubis, uma figura vermelha de cabeça de chacal; à esquerda desce uma serpente amarela (Tífon).[fonte] Nos quatro cantos, as quatro Criaturas Viventes de Ezequiel — anjo, águia, touro e leão, todas aladas — leem livros, apoiadas em nuvens.
Na própria roda, as letras T-A-R-O (que se leem também R-O-T-A, “roda” em latim) alternam-se com as letras do Nome Divino, e há símbolos alquímicos entre os raios. Waite diz seguir “a reconstrução de Éliphas Lévi”: a imagem representa “a perpétua moção de um universo fluídico e o fluxo da vida humana”, e “a Esfinge é o equilíbrio” nesse movimento.[fonte]
Como adivinhação, Waite lista “destino, fortuna, sucesso, elevação, sorte, felicidade”; invertida, “aumento, abundância, superfluidade”.[fonte]
Como usar
“A roda sempre gira: quem chega ao alto acaba descendo, quem está no fundo tende a subir.”
Há um motivo estatístico para os extremos não durarem. Quando um resultado depende em parte da sorte, um valor extremo — alto ou baixo — tende a ser seguido por outro mais perto da média: a regressão à média, que Galton mediu na altura (pais muito altos têm, em média, filhos mais baixos que eles).[fonte] A sorte que puxou o pico não se repete; por isso o trimestre recorde de uma equipe costuma ser seguido por um só bom — e ler essa queda como declínio engana.
“A carta se chama Fortuna, não Mérito: o que ela move é obra da sorte, não do esforço.”
Tendemos a julgar uma decisão pelo desfecho, não por quão acertada era com a informação da hora — o viés de resultado. Baron e Hershey deram a voluntários a mesma decisão, mudando só como terminava: quando dava errado, era avaliada como pior.[fonte] A roda separa a qualidade da escolha da qualidade da sorte no lance: uma aposta que pagou não era, com isso, sábia. Pergunte — com o que eu sabia então, a decisão foi boa, onde quer que a roda tenha parado?
Repositório
Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.
O que a roda não lembra
“A roda gira sem memória: cada volta recomeça do zero, indiferente à anterior.”
Depois de uma sequência de um mesmo resultado, sentimos que o oposto está “na hora” — a falácia do apostador. Tversky e Kahneman a ligaram à crença na “lei dos pequenos números”: esperamos que trechos curtos do acaso já pareçam equilibrados, então uma série de vermelhos faz o preto parecer atrasado.[fonte] Mas eventos independentes não têm memória. Depois de três propostas recusadas, a quarta não fica mais provável só porque “já era tempo”: a Fortuna não guarda placar.
A roda gira, e a gente volta ao mesmo ponto
“A roda leva ao topo e ao fundo, mas nunca para: toda subida e toda queda acabam passando.”
Brickman e colegas compararam ganhadores recentes de loteria com pessoas paralisadas em acidentes: os ganhadores não eram muito mais felizes no dia a dia, e as vítimas, menos infelizes do que se supunha — ambos voltando a uma linha de base.[fonte] É a adaptação hedônica: grandes viradas da fortuna perdem força no que se sente. A promoção empolga menos do que o previsto meses depois; o revés dói menos do que o temido. Nomear isso modera tanto a corrida quanto o pavor.
O que fica firme enquanto a roda gira
“As quatro criaturas nos cantos não giram com a roda — ficam fixas, lendo, enquanto a fortuna roda no meio.”
A quem você atribui os resultados — à própria ação (interno) ou à sorte e aos outros (externo) — é uma disposição mensurável, o lócus de controle descrito por Rotter.[fonte] Nenhum extremo acerta: “é tudo sorte” gera passividade; “depende só de mim” gera culpa falsa. O útil é separar, num caso concreto, o que responde ao seu esforço do que é o lance da roda. Numa suíte de testes instável, separe a config corrigível da carga de CI que não obedece. Os cantos guardam o que é seu; a roda, o resto.
Puro místico
tradição · sem correlato verificável
Para Waite, a roda inteira significa “a perpétua moção de um universo fluídico”, com a Esfinge por equilíbrio no topo; a transliteração de Taro como Rota e o Nome Divino inscritos entre os raios mostrariam “que a Providência está implicada em tudo”.[fonte] As quatro Criaturas Viventes de Ezequiel nos cantos (lidas depois como os quatro signos fixos ou os quatro evangelistas), Tífon e Hermanubis subindo e descendo, os símbolos alquímicos, e a atribuição da Golden Dawn (Júpiter, a letra Kaph, “o Senhor das Forças da Vida”): tudo isso mora aqui — herança simbólica, sem correlato verificável, sem uso prometido.
Mostrar leitura invertida
Na tradição, a Roda invertida não é desastre: Waite lista para o reverso “aumento, abundância, superfluidade” — a fortuna em excesso, transbordando.[fonte]
Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para checar duas bordas. Uma é o viés do mundo justo: quando a roda desce sobre alguém, tendemos a ler a queda como merecida, para manter a crença de que o mundo é justo; Lerner e Simmons viram observadores desvalorizarem uma vítima inocente que não podiam socorrer.[fonte] A pergunta: estou lendo o azar de alguém como veredito sobre o caráter dele? A outra é o viés retrospectivo: depois que a roda para, “eu sabia que ia virar”; Fischhoff mostrou que saber o desfecho infla o quanto ele parecia previsível.[fonte] Estou reescrevendo as chances agora que sei onde parou?
Fontes
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Galton, F. “Regression towards Mediocrity in Hereditary Stature.” Journal of the Anthropological Institute of Great Britain and Ireland 15 (1886): 246–263.
- Baron, J. & Hershey, J. C. “Outcome Bias in Decision Evaluation.” Journal of Personality and Social Psychology 54, n. 4 (1988): 569–579.
- Tversky, A. & Kahneman, D. “Belief in the Law of Small Numbers.” Psychological Bulletin 76, n. 2 (1971): 105–110.
- Brickman, P., Coates, D. & Janoff-Bulman, R. “Lottery Winners and Accident Victims: Is Happiness Relative?” Journal of Personality and Social Psychology 36, n. 8 (1978): 917–927.
- Rotter, J. B. “Generalized Expectancies for Internal Versus External Control of Reinforcement.” Psychological Monographs: General and Applied 80, n. 1 (1966): 1–28.
- Lerner, M. J. & Simmons, C. H. “Observer’s Reaction to the ‘Innocent Victim’: Compassion or Rejection?” Journal of Personality and Social Psychology 4, n. 2 (1966): 203–210.
- Fischhoff, B. “Hindsight ≠ Foresight: The Effect of Outcome Knowledge on Judgment under Uncertainty.” Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance 1, n. 3 (1975): 288–299.
História da carta
Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como a roda da deusa Fortuna, um lugar-comum medieval, entrou no tarô, e de onde vieram a esfinge, o chacal e a serpente que giram nela.
A roda da deusa Fortuna
A roda da fortuna é muito mais velha que o tarô. Na Antiguidade e na Idade Média, a deusa Fortuna era mostrada girando uma roda à qual figuras humanas se agarram, subindo e caindo ao sabor do giro. Boécio, na Consolação da Filosofia (por volta de 524), deu a essa imagem sua forma literária mais influente: a própria Fortuna toma a palavra e defende sua roda — girar é a natureza dela; tirar e dar é o que ela faz.[fonte] A cena cobriu rosáceas de catedrais e manuscritos por toda a Idade Média, muitas vezes com quatro figuras e lemas em latim.[fonte]
▸ Nota: os quatro lemas da roda medieval
Nas iluminuras medievais, quatro figuras marcam os pontos da roda, cada uma com uma frase: regnabo (“reinarei”, subindo), regno (“reino”, coroada no topo), regnavi (“reinei”, caindo) e sum sine regno (“estou sem reino”, esmagada embaixo).[fonte] É o ciclo inteiro da ascensão e da queda num só desenho — a mesma roda que o tarô herdaria.
A roda entra no baralho
Nos tarôs italianos do século XV, a carta traz essa roda quase intacta: uma manivela a gira, e criaturas meio humanas, meio animais — às vezes com orelhas de burro — sobem por um lado e despencam pelo outro.[fonte] No Tarô de Marselha, fixou-se La Roue de Fortune: a roda num eixo, girada por uma manivela, com dois bichos nas laterais (um sobe, o outro desce) e uma terceira figura coroada equilibrada no topo, às vezes de espada.[fonte] Ainda não há esfinge nem chacal — são animais de fábula, não símbolos esotéricos.
Éliphas Lévi: a esfinge, o chacal e Tífon
A leitura oculta veio depois. Éliphas Lévi, nos anos 1850, redesenhou a roda trocando os bichos de fábula por figuras egípcias: Hermanubis (cabeça de chacal) subindo de um lado, Tífon (um monstro-serpente) descendo do outro, e uma esfinge com espada equilibrada no topo — a esfinge como o equilíbrio que se mantém firme enquanto tudo gira.[fonte] Lévi ligou a roda à visão de Ezequiel e às quatro criaturas que a tradição cristã leu como os evangelistas. Waite adotaria exatamente esse arranjo — invertendo-o, como ele mesmo admite.[fonte]
1909: a roda de Smith e Waite
A imagem que hoje se pensa ao ouvir “A Roda da Fortuna” é a de Pamela Colman Smith (1909): a esfinge azul de espada no topo, o Hermanubis vermelho subindo à direita, a serpente amarela (Tífon) descendo à esquerda, e as quatro Criaturas Viventes aladas lendo nos cantos.[fonte] Smith inscreveu na roda as letras T-A-R-O / R-O-T-A entrelaçadas com o Nome Divino hebraico e os símbolos alquímicos. Antes disso, a Golden Dawn já dera à carta o planeta Júpiter e a letra Kaph (“palma da mão”), no caminho 21 da Árvore da Vida, com o título “O Senhor das Forças da Vida”.[fonte] A roda da deusa Fortuna virou um diagrama cósmico — o mesmo giro de sempre, coberto de camadas novas.
Fontes
- Boécio, A. M. S. De Consolatione Philosophiae (A Consolação da Filosofia). c. 524.
- Kaplan, S. R. The Encyclopedia of Tarot, vol. I. Nova York: U.S. Games Systems, 1978.
- Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
- Lévi, É. Dogme et Rituel de la Haute Magie. Paris: Germer Baillière, 1854–1856. (Trad. inglesa de A. E. Waite, Transcendental Magic, 1896.)
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.