Arcano Maior · nº 18
A Lua
Em estudo
Leitura tradicional
A Lua é o arcano XVIII. Waite anota que a lua está “crescente no chamado lado da misericórdia, à direita de quem observa”, com “dezesseis raios principais e dezesseis secundários”. A carta, diz ele, “representa a vida da imaginação apartada da vida do espírito”.[fonte]
“O caminho entre as torres é a saída para o desconhecido. O cão e o lobo são os medos da mente natural diante desse lugar de saída, quando só há luz refletida para guiá-la.” Abaixo sobe “aquilo que vem das profundezas”, que “rasteja do abismo de água para a terra, mas em regra afunda de volta de onde veio”.[fonte]
Waite fecha com uma imagem de aquietamento: “a face da mente lança um olhar calmo sobre a inquietação lá embaixo; o orvalho do pensamento cai; a mensagem é: aquieta-te.” Como adivinhação, ele lista “inimigos ocultos, perigo, calúnia, escuridão, terror, engano, forças ocultas, erro”. Invertida: “instabilidade, inconstância, silêncio, engano e erro em menor grau”.[fonte]
Como usar
“A lua dá só luz refletida, o caminho se vê mal, e Waite resume a carta em 'engano' e 'erro' — as coisas não são o que parecem.”
Quando o sinal é fraco, a mente completa o resto — e completa com o que já esperava. Bruner e Minturn mostraram isso com uma figura ambígua, entre um “B” e um “13”: lida numa fileira de letras, virava B; entre números, virava 13. O contexto, não o traço, decidia.[fonte] Um erro de teste vago ou uma mensagem seca no chat funcionam igual. Antes de reagir, separe o que o dado diz de fato do que sua expectativa acrescentou.
“O caminho entre as torres é a 'saída para o desconhecido', e o cão e o lobo são 'os medos da mente natural' diante dela.”
Ficar sem resposta incomoda, e o incômodo empurra a fechar rápido. Kruglanski e Webster chamaram isso de necessidade de fechamento cognitivo: sob pressão ou ambiguidade, a gente “agarra” a primeira explicação plausível e “congela” nela, descartando o que a contradiz.[fonte] Escolher uma arquitetura no primeiro dia do projeto alivia — e prende. O passo é distinguir duas coisas: “preciso encerrar o desconforto” e “já tenho o bastante para decidir”. Só a segunda justifica fechar.
Repositório
Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.
O medo do que não se enxerga
“O cão e o lobo uivam para a lua, e Waite lista 'terror' e 'inimigos ocultos' — o pavor diante do que a luz fraca não revela.”
Para alguns, não é o resultado ruim que apavora — é a própria incerteza. Buhr e Dugas mediram essa intolerância à incerteza, a tendência de reagir ao ambíguo como ameaça, e a ligaram à preocupação crônica.[fonte] Um silêncio depois de enviar uma proposta vira, na cabeça, recusa. Nomear ajuda: “estou tratando ‘não sei’ como ‘deu ruim’”. A informação não mudou; a leitura de ameaça, sim.
O que sobe do fundo
“O lagostim 'rasteja do abismo de água para a terra, mas em regra afunda de volta' — a coisa que emerge e some, para a tradição, é o que vem das profundezas da mente.”
Empurrar um pensamento para baixo costuma fazê-lo voltar com mais força. Wegner pediu a pessoas que não pensassem num urso branco: elas pensaram nele mais que o grupo livre — e mais ainda depois, num efeito de rebote.[fonte] Tentar “não pensar” no prazo apertado, enquanto se cria, só o mantém à tona. O que ajuda não é afundar o lagostim: é deixá-lo vir — anotar a preocupação, marcar hora para tratá-la — em vez de gastar força prendendo-o embaixo.
“Aquieta-te”: o olhar calmo sobre a inquietação
“Waite descreve 'a face da mente' lançando 'um olhar calmo sobre a inquietação lá embaixo', e resume a mensagem da carta como 'aquieta-te'.”
Dar nome ao que se sente reduz a intensidade. Lieberman e colegas viram, em imagens do cérebro, que rotular uma emoção em palavras — “isto é raiva”, “isto é medo” — baixava a atividade da amígdala, a região do alarme, e ativava o controle no córtex pré-frontal.[fonte] Diante de um feedback que te desmontou, não sufoque a reação: diga a si mesmo “estou com medo de ter errado feio”. O olhar que nomeia já começa a acalmar.
Puro místico
tradição · sem correlato verificável
Waite lê a carta em chave imaginativa e sem correlato verificável: a lua “crescente no lado da misericórdia”, “a vida da imaginação apartada da vida do espírito”, o “orvalho do pensamento” que cai, e “aquilo que vem das profundezas — a tendência sem nome, mais baixa que a besta selvagem”.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn: a letra Qoph (“nuca”), o signo de Peixes, o caminho 29 na Árvore da Vida e o título “A Regente do Fluxo e Refluxo”.[fonte] As duas torres, os trinta e dois raios, as gotas em forma de yod, o cão e o lobo — tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável e sem uso prometido.
Mostrar leitura invertida
Na tradição, Waite lista para a Lua invertida “instabilidade, inconstância, silêncio, engano e erro em menor grau”.[fonte] Muitos leitores modernos leem o reverso como o nevoeiro começando a se desfazer: o engano vindo à tona, o medo perdendo força.
Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para achar onde você está lendo no escuro. Uma pergunta: o que aqui é o dado, e o que é o que eu esperava ver? — vale separar os dois antes de agir.[fonte] Outra: fechei essa resposta porque bastava, ou só para parar de não saber? — se foi a segunda, o desconforto não é sinal de que já dá para decidir.[fonte]
Fontes
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Bruner, J. S. & Minturn, A. L. “Perceptual Identification and Perceptual Organization.” The Journal of General Psychology 53, n. 1 (1955): 21–28.
- Kruglanski, A. W. & Webster, D. M. “Motivated Closing of the Mind: ‘Seizing’ and ‘Freezing’.” Psychological Review 103, n. 2 (1996): 263–283.
- Buhr, K. & Dugas, M. J. “The Intolerance of Uncertainty Scale: Psychometric Properties of the English Version.” Behaviour Research and Therapy 40, n. 8 (2002): 931–945.
- Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R. & White, T. L. “Paradoxical Effects of Thought Suppression.” Journal of Personality and Social Psychology 53, n. 1 (1987): 5–13.
- Lieberman, M. D. et al. “Putting Feelings into Words: Affect Labeling Disrupts Amygdala Activity in Response to Affective Stimuli.” Psychological Science 18, n. 5 (2007): 421–428.
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
História da carta
Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como a Lua deixou de ser uma figura segurando um crescente e virou a cena dos cães, das torres e do lagostim que rasteja da água.
No começo, uma mulher e um crescente
A cena que hoje reconhecemos — os dois animais uivando, as torres, o lagostim — não é a mais antiga. Nos baralhos italianos pintados à mão do século XV, como o Visconti-Sforza, a carta da Lua mostra uma única figura que segura uma lua crescente na mão; não há cães, nem torres, nem bicho saindo da água.[fonte] A composição famosa se fixaria bem depois, com os baralhos de tipo Marselha.
“La Lune”: a cena do Tarô de Marselha
No Tarô de Marselha a carta se chama La Lune — “a Lua” — e já traz o motivo que a Rider-Waite-Smith herdaria quase inteiro: uma grande lua no alto pingando gotas, dois cães (ou um cão e um lobo) que ladram para ela, duas torres ao fundo e um lagostim dentro de um lago em primeiro plano.[fonte] O arranjo estava dado muito antes de qualquer leitura psicológica; Waite e Smith o receberam praticamente pronto.
O redesenho de Waite e Smith (1909)
Waite e Pamela Colman Smith mantiveram a cena de Marselha e apertaram os detalhes. Fixaram a lua com dezesseis raios principais e dezesseis secundários e, no rosto lunar, “crescente no lado da misericórdia”. Distinguiram os dois animais — um cão e um lobo — como “os medos da mente natural”, e conservaram o lagostim que “rasteja do abismo de água para a terra”.[fonte] Onde a tradição via só uma cena noturna, Waite pôs uma leitura própria: “a vida da imaginação apartada da vida do espírito”, encerrada na mensagem “aquieta-te”.[fonte]
▸ Nota: o lagostim e as gotas
Waite não nomeia uma espécie: fala de “aquilo que vem das profundezas”. A tradição posterior costuma chamar o bicho de lagostim ou lagosta, herança do écrevisse das cartas de Marselha — leitura de detalhe, não algo que o texto de 1909 fixe. As gotas que caem da lua são muitas vezes lidas como yods, a letra hebraica — associação simbólica acrescentada depois, ligada à camada da Golden Dawn.
A camada da Golden Dawn: Qoph e Peixes
A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas da carta. Deu-lhe a letra hebraica Qoph (“nuca”, “parte de trás da cabeça”), o signo de Peixes e o caminho 29 da Árvore da Vida — de Netzach a Malkuth —, com o título “A Regente do Fluxo e Refluxo, a Filha dos Filhos dos Poderosos” no Book T.[fonte] Peixes, signo de água, rima com o lago e o lagostim; ainda assim é camada acrescentada séculos depois da carta pintada, não propriedade que a Lua de Marselha já carregava.[fonte]
Fontes
- Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
- Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)