Arcano Maior · nº 17
A Estrela
Em estudo
Leitura tradicional
A Estrela é o arcano XVII. Waite descreve “uma grande estrela radiante de oito raios, cercada por sete estrelas menores — também de oito raios”. A figura feminina em primeiro plano está inteiramente nua: tem “o joelho esquerdo na terra e o pé direito sobre a água”. Ela “verte a Água da Vida de dois grandes cântaros, irrigando o mar e a terra”. Ao fundo, uma elevação e, à direita, um arbusto onde pousa um pássaro.[fonte]
A estrela, diz Waite, é “l’étoile flamboyante” — a estrela flamejante da maçonaria, “que, no entanto, foi ali confundida”. Ele dá à carta dois lemas: “Águas da Vida livremente” e “Dádivas do Espírito”. No resumo dele, “é uma carta de esperança”; em outros planos, guarda “imortalidade e luz interior”.[fonte]
Como adivinhação, Waite lista, curiosamente, dois sentidos opostos: “perda, roubo, privação, abandono; outra leitura diz — esperança e perspectivas luminosas”. Invertida: “arrogância, altivez, impotência”.[fonte]
Como usar
“No resumo de Waite, a Estrela 'é uma carta de esperança' — a luz que guia depois do escuro.”
Esperança útil não é torcer e aguardar. Snyder a definiu por dois componentes mensuráveis: agência — a crença de que consigo avançar rumo à meta — e caminhos — saber gerar rotas concretas até ela; assim medida, ela prevê persistência e desempenho.[fonte] Diante de um bug travado há dias, “tomara que saia” não move nada; “tenho três hipóteses e começo pela mais barata de testar”, sim. Troque a esperança vaga por uma rota e o primeiro passo dela.
“A Estrela vem logo depois da Torre: a água que repõe a vida após o colapso — a tradição a lê como cura e recomeço.”
Depois de uma ruptura que derruba suas suposições, parte das pessoas reconstrói com prioridades novas, laços mais fundos e um senso ampliado do possível. Tedeschi e Calhoun chamaram isso de crescimento pós-traumático e o mediram — mas é um processo que corre ao lado da dor, não um “lado bom” nem garantia.[fonte] Depois de um projeto cancelado, o movimento não é correr atrás da “lição”: é deixar a suposição abalada — “era mesmo o certo?” — ser examinada antes de reerguer.
Repositório
Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.
A estrela que dá direção
“A estrela flamejante brilha no alto e orienta quem olha para cima — a luz que aponta o rumo.”
Uma visão distante só puxa a ação quando vira meta específica. Locke e Latham mostraram, ao longo de décadas, que metas específicas e difíceis geram mais desempenho que “faça o seu melhor” ou um desejo vago: elas dirigem atenção, esforço e persistência.[fonte] “Quero melhorar o produto” é uma estrela bonita e inerte; “cortar o tempo de carregamento pela metade até o fim do trimestre” orienta cada escolha da semana. Traduza a estrela num alvo que dê para mirar.
Repor as águas
“A figura verte a Água da Vida de dois cântaros, devolvendo-a ao mar e à terra — reposição, não gasto.”
Descanso não é ócio: é o reabastecimento que torna o próximo esforço possível. Sonnentag e Fritz identificaram o que de fato recupera — sobretudo o desligamento psicológico, parar de remoer o trabalho fora do expediente; sem ele, a tensão se acumula.[fonte] Não basta a pausa em que você segue rolando o mesmo problema na cabeça. Agende o desligamento: uma caminhada sem o celular, uma noite sem abrir o repositório. Verter de volta é o ponto.
A cena serena
“A cena é de calma — a água parada, o corpo à vontade, o céu limpo: a serenidade da carta.”
Estados positivos não só dão prazer: alargam o que você enxerga. Fredrickson mostrou que emoções como serenidade e esperança ampliam o repertório momentâneo de pensamento e ação — atenção mais aberta, mais opções à vista — e, com o tempo, constroem recursos duráveis; o medo estreita.[fonte] Antes de atacar um problema que pede saídas criativas, baixe a temperatura em vez de forçar tenso. A calma não é enfeite: amplia o leque de jogadas que você consegue ver.
Puro místico
tradição · sem correlato verificável
Waite carrega a carta de sentido sem correlato verificável: a estrela é “l’étoile flamboyante” da maçonaria; a figura nua verte a “Água da Vida”, sob os lemas “Águas da Vida livremente” e “Dádivas do Espírito”; a cena guarda “imortalidade e luz interior”.[fonte] Some-se a camada da Golden Dawn: a letra Tzaddi (“anzol”), o signo de Aquário, o caminho 28 na Árvore da Vida e o título “A Filha do Firmamento, a Habitante entre as Águas”.[fonte] As oito estrelas de oito raios, o pássaro na árvore, os cinco filetes que a água faz ao cair sobre a terra — tudo isso mora aqui: herança simbólica, sem correlato verificável e sem uso prometido.
Mostrar leitura invertida
Na tradição, Waite lista para a Estrela invertida “arrogância, altivez, impotência”.[fonte] Muitos leitores modernos leem o reverso como esperança perdida, desânimo ou fé abalada na própria direção.
Como prompt de reflexão — não previsão —, serve para achar onde a luz se apagou. Uma pergunta: minha esperança virou espera passiva? — o corretivo é convertê-la numa rota e no primeiro passo.[fonte] Outra: estou tentando repor sem nunca me desligar de verdade? — a resposta é agendar o desligamento, não só a pausa.[fonte]
Fontes
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Snyder, C. R. “Hope Theory: Rainbows in the Mind.” Psychological Inquiry 13, n. 4 (2002): 249–275.
- Tedeschi, R. G. & Calhoun, L. G. “Posttraumatic Growth: Conceptual Foundations and Empirical Evidence.” Psychological Inquiry 15, n. 1 (2004): 1–18.
- Locke, E. A. & Latham, G. P. “Building a Practically Useful Theory of Goal Setting and Task Motivation: A 35-Year Odyssey.” American Psychologist 57, n. 9 (2002): 705–717.
- Sonnentag, S. & Fritz, C. “The Recovery Experience Questionnaire: Development and Validation of a Measure for Assessing Recuperation and Unwinding from Work.” Journal of Occupational Health Psychology 12, n. 3 (2007): 204–221.
- Fredrickson, B. L. “The Role of Positive Emotions in Positive Psychology: The Broaden-and-Build Theory of Positive Emotions.” American Psychologist 56, n. 3 (2001): 218–226.
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
História da carta
Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: como a estrela erguida na mão virou a aguadeira ajoelhada, e por que a atribuição da letra hebraica dela virou motivo de briga entre ocultistas.
No começo, uma estrela na mão
A imagem que hoje reconhecemos — a mulher nua vertendo água — não é a mais antiga. Nos baralhos italianos pintados à mão do século XV, como o Visconti-Sforza, a carta da Estrela mostra uma figura de pé que ergue uma grande estrela na mão, não alguém ajoelhado à beira d’água.[fonte] A cena da aguadeira só se fixaria depois, com os baralhos de tipo Marselha.
“L’Étoile”: a aguadeira do Tarô de Marselha
No Tarô de Marselha a carta se chama L’Étoile — “a Estrela” — e traz o motivo que a Rider-Waite-Smith herdaria quase inteiro: uma mulher nua ajoelhada à beira da água, vertendo dois jarros, sob um céu de estrelas (uma grande e várias menores), com um pássaro pousado numa árvore ao lado.[fonte] A composição estava dada muito antes de qualquer leitura psicológica; Waite e Smith a receberam quase pronta.
O redesenho de Waite e Smith (1909)
Waite e Pamela Colman Smith mantiveram a aguadeira de Marselha e apertaram os detalhes. Fixaram oito estrelas de oito raios — uma grande radiante e sete menores — e mantiveram os dois cântaros, um irrigando o lago e outro a terra, onde a água se abre em cinco filetes.[fonte] Waite nomeia a estrela central: é “l’étoile flamboyante”, a estrela flamejante da maçonaria — “que, no entanto”, diz ele, “foi ali confundida”.[fonte]
▸ Nota: o pássaro na árvore
Waite fala apenas de “um pássaro” que pousa no arbusto à direita; não o nomeia. A tradição posterior costuma lê-lo como uma íbis, ave associada a Tot, deus egípcio da escrita e da sabedoria — leitura acrescentada depois, não algo que o texto de 1909 afirme.
A camada da Golden Dawn: Tzaddi e Aquário
A Golden Dawn fixou as correspondências ocultas da carta. Deu-lhe a letra hebraica Tzaddi (“anzol”), o signo de Aquário e o caminho 28 da Árvore da Vida — de Netzach a Yesod —, com o título “A Filha do Firmamento, a Habitante entre as Águas” no Book T.[fonte] Aquário, o “aguadeiro” do zodíaco, rima com a mulher que verte água; ainda assim é camada acrescentada séculos depois da carta pintada, não propriedade que a Estrela de Marselha já carregava.[fonte]
“Tzaddi não é a Estrela”: a troca de Crowley
Uma linha do Livro da Lei, que Aleister Crowley disse ter recebido em 1904 — “Tzaddi não é a Estrela” —, o levou a rever o esquema da Golden Dawn. Anos depois, no baralho Thoth, ele trocou as letras do Imperador e da Estrela: a Estrela passou a receber Heh (“janela”), e o Imperador, Tzaddi.[fonte] Os signos ficaram onde estavam — a Estrela seguiu ligada a Aquário —; só as letras dançaram. É por isso que, dependendo do baralho, a mesma carta aparece com Tzaddi (Golden Dawn) ou Heh (Thoth).
Fontes
- Dummett, M. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
- Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
- Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
- Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”.)
- Crowley, A. The Book of Thoth (Egyptian Tarot). The Equinox III, n. 5. Londres: Ordo Templi Orientis, 1944.